Quarta-feira

Às vezes eu quero que você fique.
E eu gosto do seu sorriso.
Há dias que quero que o tempo estique.
E eu gosto de estar contigo.

Posso ser chata, mas sinto.
Pareço não sentir, mas minto.
Verdade é que se sinto, não digo.

Terça-feira

Hoje acordei afim de sonhar.
Um vestido amarelo rendado.
Folhas caídas do telhado.
Eu, deitado.

Sorri afim de me apaixonar.
Cabelos pretos arrumados.
Botões da camisa selados.
Ela, pecado.

Amei por estar afim de amar.
Acordes de mi maior tocados.
Lua no céu estrelado.
Nós, enamorados.

Sábado

A ausência de dor me assusta.
Tudo que é intenso é, também, pontiagudo.
Fere, apunhala, machuca.
E a falta de ferida é falta de tudo.
É falta de pulso.
Caminho obscuro, história sem rumo.
A ausência de dor me apavora.
Me persegue a hora de ir embora.
Faltando dor, nada demora.
É que se não fere, não sara.
Se não dói, tudo pára.
Em lugar sem dor, amor não se instala.

Quinta-feira

Com as mãos nos bolsos, puxando a justa calça preta para baixo e deixando parte da barriga à mostra, ela parecia muito mais sexy que o normal. A blusa de botão incrivelmente apertada, deixava a mostra parte dos seios que não podiam ser contidos pelo sutiã vermelho acetinado. Tenho uma surpresa para você. – Falei. Mesmo curiosa, ela não indagou a natureza da surpresa, apenas lançou seu olhar inquisidor e disse “surpreenda-me.”. Então, dirigi-me ao final da sala para invadi-la com a música. Ela havia me dito repetidas vezes que não via a hora de foder ouvindo aquela canção. É, foder. Já ouvira aquela mulher usando todos os verbos que designam essa ação; foder, trepar, transar, mas nunca, jamais, fazer amor. Eu me perguntava o porquê. Certo dia, conversando com um barbudo que muito a acompanhava, perguntei se ele conhecia o fato que originou essa aversão. Ele, tragando lentamente seu cigarro de cawboy, revelou que, dos doze homens que ele sabia que ela havia levado para a cama, nenhum deles tinha sido amado por ela. Continuou dizendo que ela deveria ter uma espécie de regra, de nunca conciliar sexo com amor, maldita regra que fez com que ela nunca houvesse transado com ele. Alegava que, dessa forma, poderia contaminar o amor com dor, e isso era uma angústia que ela não poderia suportar.

Não contente com a tal resposta, decidi perguntá-la, ela, despreocupadamente, me disse “Amor é uma palavra muito forte, quase proibida.”. Pronto, isso era tudo que eu conhecia de sua conduta amorosa, isso e suas calcinhas de renda, isso e suas fantasias loucas. Ainda assim, eu estava completamente envenenado por ela. A música se desprendeu das caixas de som, ela, rapidamente, desabotoou a blusa, as calça, e, tive a impressão de que desabotoaria qualquer outra peça que houvesse para desabotoar. Aquela visão de mínimas vestes vermelhas me fez lembrar do diabo, diabo esse, que ela, provavelmente, trazia entre as pernas. E eu já não me importava mais com a falta de amor, aliás, eu me importava com pouquíssimas coisas naquele instante. Ela deitou na cama e eu beijei-lhe os pés, subindo pelas pernas, por dentro de suas coxas. Ela acariciou meus cabelos por todo o tempo que fiquei parado ali. Foi demorado, mas alcancei seu umbigo, que, sem exageros, era lindo, perfeitamente simétrico, redondinho. Ela me puxou pelos braços, segui. Desabotoei seu sutiã, ergui suas costas da cama e a abracei com força. Sentia suas unhas fincadas nas minhas costas, suas pernas sobre as minhas e suas idéias esparramadas na minha cama. E, naquele momento de regozijo libidinoso, parte de mim era tristeza, pois eu sabia, infelizmente, que aquela era a única forma na qual eu poderia estar dentro dela.

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Terça-feira

Senti uma saudade consentida.
Daquele tipo de saudade bandida.
Um novo tipo de saudade incontida.
Ah, saldade maldita.

Podiam inventar palavra menos doída.
Que dessa, minha paixão, já está encardida.
E tudo que digo nessa louca vida
É "Chispe daqui, saudade sentida."

E se amanhã esqueçer toda saudade tida,
Em teus braços me sintirei tão querida
Que vou pensar não existir ferida
maior que a saudade e a partida.

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Domingo

Não o amava? - se perguntava. Era fato que para fazer aquele tipo de coisa não era necessário, nem um pouco, amar. E os pensamentos escorriam por sua mente semelhantemente a gota de suor que lentamente percorria o contorno de sua coluna vertebral. Estava confusa, sentia-se feliz e um pouco culpada. A última coisa que desejava era machucá-lo. Todo vestido em preto, ele a fitava com tamanha admiração que ela não conseguia compreender. Gostaria de olhar-se no espelho, para conferir se estava tão bonita quanto os olhos dele refletiam, mas não tinha coragem de enfrentar um espelho em trajes sumários. Por não suportar olha-lo, deu-lhe as costas. Ele, suavemente, levantou-se e a abraçou. Apoiou o queixo no seu ombro e sussurou qualquer palavra que ela não pode compreender. Talvez o amasse, pensou. Gostava de estar ali, mesmo que não dissesse. Sentia falta do cheiro dos cabelos dele, mesmo que ninguém soubesse.
Naquele exato momento, sentia uma vontade que não conseguia decifrar, talvez fosse de ficar ali para sempre. Exatamente ali, eternamente.

Quarta-feira

Amor é uma palavra muito forte, quase proibida.